sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Atrás do Tempo


...deixo-me ficar, na sombra do passado, escondido da turbulência do presente, evitando as vagas do futuro. Deixo que o tempo me passe, me ultrapasse, fico quieto, estático. Com este tempo que passa, observo as imagens de vidas que arrasta detrás de si, um filme desfocado pela sua própria velocidade, fotogramas de instantes em que o próprio tempo se suspendeu, uma pausa na agitação da corrida.Deixo-me ficar, aqui onde o Sol já iluminou o dia, e a Noite é exclusivamente o remanescer do que ficou de mais um dia. Sento-me, como se conduzisse um carro, com a singular diferença de que não me movo, apenas o que está à minha volta se atarefa em passar. Esta viagem, atrás do tempo, oferece-me a possíbilidade de rever os momentos, de perceber os tormentos, de sentir de novo, duma forma inversa o que é ir da dor à alegria, da ausência à presença, do vazio ao cheio.Espero, neste regresso à origem, nesta viagem sem movimentos, voltar a ti, no lugar onde nos deixamos, ouvir-te de novo, e sentir que no teu olhar a esperança de outros tempos, é muito superior á derrota do presente. Espero, poder demonstrar-te que não é baixando os braços no presente, que alcançarás no futuro tudo aquilo que já tiveste no passado.Volto, de regresso atrás, ao lugar onde as nossas mãos se separaram pela última vez, para voltar a tocar-se no próximo futuro...

No Silêncio desta noite


No silêncio desta noite, fico a escutar a minha própria alma. A Lua, preenche o céu imenso, apagando o brilho da tua estrela. Sento-me no topo da colina, em meu redor as luzes das cidades vizinhas prolongam o firmamento, pontilhando a Terra escura, esbatendo a linha do horizonte. Hoje, não se escuta nada, apenas o som do coração que bate, a um ritmo quase parado.Sei que estiveste aqui, vi-te por entre as sombras das árvores adormecidas, deixaste-te ficar, vieste apenas olhar-me, descubrir nas palavras escritas o fôlego que por vezes te falta. Senti a tua alma palpitar na escuridão, comprimindo-se para não quebrar o silêncio, de palavras que não escreveste, de frases que nunca pronúnciaste.Com as mãos cravadas sobre a terra, deixei que os dedos se afundassem no solo fresco, deixei que criassem raizes e ali ficassem presos para que não deambulassem sobre as teclas, feitas de letras que sempre te escrevo. Mas, a minha alma, soltou-se e com ela libertaram-se as palavras, frases completas, que no silêncio desta noite, agruparam as estrelas em novas constelações e desenham sobre o céu escuro, as palavras que não ouso dizer-te ao ouvido, simplesmente porque, estiveste aqui, e não me deixaste ver-te.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

RENASCER


Adormeço sobre as sombras da noite. O meu corpo dissolve-se no silêncio, enquanto o espírito se evapora com a alma. No teu âmago, renasço a cada alvorada, como um homem novo, vazio.
Acordo num mundo novo, onde a noite é companheira dos sonhos, onde o amanhecer não doi, apenas tráz luz às sombras, e nos desperta com o chilrear dos pássaros.
O despojos, deixados atrás, são arrastados como cinzas, pelo vento norte, espalhando-se por toda a envolvente. A chuva que caiu, lavou o chão despido, levando para longe as recordações, ficando apenas a memória de um tempo que se esgotou.
A nova criação, abre os olhos para a luz da madrugada que ganha terreno à escuridão da noite, inspira profundamente, e faz-se à vida.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sobre a Meditação


Todos nós conhecemos o mundo exterior de sensações e ações mas, do nosso mundo interior de pensamentos e sentimentos nós conhecemos muito pouco. O objetivo inicial da meditação é tornar-se consciente e familiarizar-se com a vida interior. O objetivo final é alcançar a fonte de vida e consciência. Incidentemente, a prática da meditação afeta profundamente nosso caráter. Nós somos escravos do que não conhecemos. Daquilo que conhecemos, somos mestres. Qualquer que seja o vício ou a fraqueza, se os descobrimos dentro de nós e entendemos as suas causas e como funcionam, nos tornamos capazes de superá-los por conhecê-los bem. O inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. A dissolução do inconsciente libera energia: a mente se sente adequada e se torna quieta, silenciosa. Para que serve uma mente quieta? Quando a mente está quieta nós podemos nos perceber como puros observadores. Nós nos afastamos da experiência e do experimentador e nos mantemos a parte, no estado de pura consciência, a qual está entre e além dos dois. A personalidade, baseada na identificação com o ego e em imaginar que somos alguma coisa: "Eu sou isto, eu sou aquilo", continua, mas somente como parte do mundo objetivo. A sua identificação com a testemunha se quebra. A meditação é uma atividade sátvica (equilibrio) e que se volta para a completa eliminação de tamas ( inércia) e rajas ( mobilidade ou atividade). Sattva puro (harmonia) é a perfeita libertação da indolência e da agitação. Satva, Tamas e Rajas, são as nossas qualidades primordiais. Como fortalecer e purificar Sattva? Sattva é pura e forte sempre. É como o Sol que pode parecer obscurecido pelas nuvens ou pelo pó, mas somente do ponto de vista do observador. Trabalhe com as causas do obscurecimento, não com o Sol. Para quê serve Sattva? Para quê serve a verdade, a bondade, a harmonia, a beleza? Essas qualidades são metas em si mesmo. Elas se manifestam espontaneamente, sem nenhum esforço quando deixamos as coisas seguirem seu curso, quando não interferimos, quando não evitamos, ou desejamos ou conceituamos, mas simplesmente as experienciamos em total consciência. Essa consciência, por si só é Sattva. Sattva não utiliza coisas e nem é usada pelas pessoa, ela as preenche. Como eu não posso incrementar sattva, devo trabalhar com tamas e rajas somente? Como faço para lidar com elas? Observando suas influências em você e sobre você. Esteja consciente delas em operação. Observe-as se expressando em seus pensamentos, palavras e atos. Gradualmente a força delas sobre você diminuirá e a clara luz de sattva começará a emergir. Isso não é nem difícil e nem um longo processo. A seriedade e sinceridade são as únicas condições para o sucesso.
Sri Nisargadatta

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Demonstração de Ashtanga Yoga

Gayatri Mantra



GAYATRI MANTRA

OM BHUR BHUVA SWAHA
TAT SAVITUR VARENYAM
BARGHO DEVASYA DHIMAHI
DHIYO YO NAH PRACHODAYAT

OM - o som primordial
BHUR - o mundo físico
BHUVA - o mundo mental
SWAHA - o mundo celestial, espiritual
TAT - Aquele, Deus, Alma transcendental
SAVITUR - O Sol, Criador, Preservador
VARENYAM - O mais Adorado, Encantador
BHARGO - Esplêndido, Brilhante
DEVASYA - Senhor Supremo, Resplandescente
DHIMAHI - em Quem meditamos
DHIYO - o intelecto, compreensão
YO - que esta luz
NAH - nossa
PRACHODAYAT - ilumine, guie, inspire

Vergar



Vergar, sobre o peso do tempo, fazendo os braços cansados tocar o chão, deixando as pernas pesadas, cravadas no solo. Dobro-me, fazendo vénia, ao sabor dos ventos, ao seguir dos tempos. Vejo a minha sombra contornar-me, ao ritmo dos dias que passam, sinto a pele estalar, o corpo curvar, a alma mudar. Sinto a solidão das noite longas, que me envolvem e me gelam. Nem mesmo as estrelas, que pontilham o firmamento, me dão qualquer alento. Deixo-me estar, porque também não tenho para onde ir, esforço-me por não cair. Mas o corpo teima em não aguentar a força desta gravidade que me empurra contra a terra, tento, mas não consigo ganhar esta guerra. Depois, perdi o norte, a alma não sabe onde ficou, e não me encontra. Não quero afastar-me, não quero perder-me dela para sempre, mas o tempo, dissolve os sentidos, e suaviza os contornos dum momento único. Não quero esquecer-me, mas já me custa recordar aquele segundo em que tudo aconteceu. O tempo vai-me vergar.

Nasce uma Estrela


Uma nova estrela nasceu, do fogo perdido no céu. Com ela, agregam-se novas esperanças, com ela novos mundos se preparam para surgir. O espaço vazio foi inundado pela luz do seu nascimento. Dela brotou o calor da sua energia, catalizada do nada.
Harmonizam-se os elementos, a ordem celeste encarrega-se de alinhar os novos mundos que se agregam, aos poucos, a esta luz que a cada dia brilha mais intensa. Desenho, a traços de pincel, cada detalhe deste novo sistema. A cada mundo novo, recrio a imaginação.
Utopia, sonho, ou apenas realidade. Deixo voar os sentidos, e com eles levo o que ficou de mim. De asas estiradas, encaminho-me para uma nova morada, lugar mágico que detalhadamente desenhei.
Levo no bolso, um pedaço de esperança, carrego na mochila os sonhos esquecidos, e nos olhos carrego a réstia de felicidade, que me permitirá viajar, ao sabor do vento estelar.
Esta noite, se as nuvens da vida o permitirem, olha o céu, e notarás que há mais uma estrela que brilha entre a imensidão do escuro... é lá que me encontrarás, após cada dia.

domingo, 14 de outubro de 2007

Esperar

Na longa noite da vida, parei na berma do caminho e deixei-me ficar. O meu tempo seguiu em frente, e eu, simplesmente, parei. Fiquei a observar, as outras vidas que passavam, vi-vos passar a todos, escutei conversas, senti a desilusão dos vossos maiores fracassos. Sonhei com todos os vossos maiores sonhos. Vi-vos partir, tão rápido como chegasteis, e deixei-me ficar, parado, sentindo o vento passar, perdido do meu tempo, sem tempo algum onde me encontrar.

Nos momentos de solidão, enquanto naquela estrada não passava vida nenhuma, pensei em tudo o que vivi até ali, sonhei com o que teria vivido se seguisse o meu tempo, meditei sobre as decisões que tomei.

Aprendi, com cada vida que passou, colhi para mim pedaços das vossas histórias, e com o passar do tempo, os meus pés criaram raizes, os meus braços folhagem, o meu corpo, entumecido, endureceu.

Hoje, sou apenas uma árvore, na berma da estrada da vossa vida.

sábado, 13 de outubro de 2007

A Ação Divina em Nós


“A vida e todas as suas atividades são parte da ação divina sobre a natureza, manifestando-se e operando na forma humana. Na batida do coração e no ritmo da respiração podemos reconhecer o fluxo das estações e o pulsar da vida universal. O corpo é um templo que abriga a Centelha Divina. Negligenciar ou negar as necessidades do corpo e pensar nele como algo não divino é negligenciar e negar a vida universal da qual ele faz parte. Corpo mente e espírito, não podem ser divididos, pois estão inter relacionados e são aspectos de uma única consciência divina que a tudo invade. Yoga é a prática que não separa em partes este conjunto único universal e por isto, só pode ser praticada, ensinada e transmitida por aqueles que compreendem e vivem de acordo com este princípio."

(BKS Iyengar, livro: A Luz do Yoga)

O que é o Poder do Agora?


Nada mais do que o poder da sua presença, da sua consciência libertada das formas de pensamento.

Portanto, lide com o passado no nível do presente. Quanto mais atenção você der ao passado, mais energia estará dando a ele e mais probabilidades terá de construir um eu interior baseado nele. Não confunda as coisas. A atenção é essencial, mas não em relação ao passado como passado. Dê atenção ao presente. Dê atenção ao seu comportamento, às suas reações, seu humor, seus pensamentos, suas emoções, medos e desejos, da forma como eles acontecem no presente. Ali está o seu passado. Se você consegue estar presente o bastante para observar todas essas coisas, não de modo crítico ou analítico, mas sem julgamentos, significa que você está lidando com o passado e dissolvendo-o através do poder da sua presença. Não é procurando no passado que você vai se encontrar. Você vai se encontrar estando no presente.


O passado não pode ser útil para nos ajudar a compreender por que fazemos certas coisas, reagimos de determinadas maneiras, ou por que, inconscientemente, criamos nossos dramas particulares?

Quando ficamos mais conscientes do presente, podemos ter um insight sobre o porquê de determinados condicionamentos. Podemos perceber, por exemplo, se seguimos algum padrão nos nossos relacionamentos e podemos ver mais claramente coisas que aconteceram no passado. Fazer isso é bom e pode ser útil, mas não é essencial. O que é essencial é a nossa presença consciente.

Ela dissolve o passado. Ela é o agente transformador. Portanto, não procure entender o passado, mas esteja presente tanto quanto conseguir. O passado não consegue sobreviver diante da sua presença, só na sua ausência.

UM GUIA PARA A ILUMINAÇÃO ESPIRITUAL

Eckhart Tolle

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Nossos Limites

Conhecer e respeitar nossos próprios limites significa sabedoria adquirida e, paradoxalmente, é a plataforma de lançamento para vencer estes próprios limites. O conhecimento do limite, já contém em si mesmo, o princípio da sua superação. A ação de respeitar os limites é o cerne da filosofia oriental, muito difícil de compreender para a mente ocidental que, desconhecendo o limite, lança-se á "meta", ao "alvo" sem saber onde está pisando. Ilustrando este pensamento, a metáfora da raposa que caminha no gelo fino é perfeita. Os orientais dizem que “devemos ser cautelosos como uma raposa que caminha no gelo fino, sondando cada palmo do gelo a ser atravessado. Assim ela não rompe a fina camada e não molha nem mesmo a cauda". ( I CHING- o livro das mutações)

Em yoga, o princípio é o mesmo. Uma postura (ásana em nomenclatura sânscrita) nunca deve ser uma meta a atingir. O ásana é um caminho a percorrer em suaves estágios, medindo cada passo, sentindo cada movimento que deverá estar coordenado com a respiração. A busca da meta, de algo a ser atingido, por si só gera tensão e, portanto, a verdadeira yoga é praticada sem o desejo de atingir a meta e sim, com a disciplina e a humildade de percorrer etapas. Nestas etapas, aplicamos o princípio oriental do avanço e do recuo, do faz e do não faz. Nestes avanços e recuos, checamos o terreno, estabelecemos nossos limites e avançamos em terreno seguro.

Para que possamos estar nestas condições, entra o outro fator preponderante nesta prática: o silêncio da mente. Neste estado de silêncio, não se escuta mais a voz do ego exigindo o sucesso, clamando pela vitória. Silenciadas as vozes do desejo, passamos a ouvir nosso guia interior que nos conduz nos momentos de avanço e nos aconselha nos momentos de recuo. Desta forma, evitamos sobrecarregar articulações e músculos ao ponto de levá-los a um colapso provocando no momento uma queda e mais tarde, a dor de uma lesão com seus contrapontos emocionais de fracasso, frustração e infelicidade.

Este ensinamento durante a prática é transportado para a nossa vida diária e aprendemos a "caminhar" na direção dos nossos objetivos ao contrário de "lutar/brigar" por eles. Percebem a diferença? Caminhar na direção de um objetivo não significa que precisemos "lutar”, pois a luta contém em si mesma um componente de violência, fruto do desejo. A luta impõe vencedores ou perdedores, motivos para júbilo ou frustração, geradores da infelicidade, pois tanto um quanto o outro, são sentimentos fugazes. E aqui diferenciamos apenas para conteúdo didático filosófico, as palavras vontade e desejo. Digamos que, a “vontade" é interna e vem do coração, o "desejo" é externo e vem do ego. Neste caso, a Vontade não nos pertence e desta forma se torna sagrada ( termo que significa unida ou una) e se manifesta através da ação que procede da não-ação.

A "não-ação" não significa cruzar os braços e esperar que as coisas caiam do céu. Pelo contrário, a não-ação exige sabedoria, inteligência, disciplina para compreender que tudo nesta vida deverá vir da profunda, misteriosa e sagrada ordem interior. Precisamos apenas nos disciplinar e aprender a ouvir através do silêncio. Existem vários caminhos para isto, um deles é a prática do Yoga.

O que se faz externamente se vai como um sopro de vento, mas o que se faz através das ordens ditadas de dentro, é eterno.